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Pinceladas Quotidianas

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Casamento da Magui

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Nha Txutxa di Nhu Minguinho mulher viúva que fora bem casada na Zona de Várzea professava a fé cristã através da Igreja Católica. A sua fé era manifestada de várias formas e casar a filha através da Igreja Matriz era um desses sonhos que iria brevemente realizar-se. Era no ano de 1993, num Maio ameno o mês das noivas e da virgem Maria. Tinha recebido duas cartas nos Correios. Um do seu filho Carlos Eduardo que vivia na Alemanha e outra da sua filha Margarida que vivia em Portugal há já mais de 13 anos. Na carta da filha esta manifestava o desejo de celebrar o matrimónio em Cabo Verde com os familiares.

Estava radiante ao saber que a sua filha Margarida ou Magui como era carinhosamente tratada por ela viria para Cabo Verde celebrar o matrimónio. Finalmente a sua menina travessa iria sossegar-se pensou ela radiante com um riso maroto nos lábios. Pensou logo na possibilidade de partilhar a novidade com a sua comadre Natin di Putxa.

“Kumadre , bom dia n’ben fla nha ma Magui di meu sta ben Káza li na Kauberdi ku fidjo Panai di Nuna” disse a mãe da noiva à sua melhor amiga e vizinha de longos anos que lhe ajudou aquando do falecimento do marido. A sua comadre ao ouvir a novidade ficou pensativa e logo quis saber quem era o noivo. “Kal di kês fidjo di Panai kumadre ? Ka gô es ka ta presta, kel maz bedjo sta preso na Portugal pamodi ta bendeba droga”. Informou-lhe a comadre.

Mas, a mãe da Magui a senhora Txutxa ou Nha Txutxa como se costuma dizer em crioulo em Cabo Verde mostrou-se firme na sua resposta. “ Nau, nha fidja Magui sta ben káza li na Kauberdi ku Sandrinho Kaio kel maz pikinote” respondeu a mãe sorridente. A vizinha levantou-se assustada da cadeira onde estava sentada a moer a camoca. “Mudjer Sandrinho Kaio, sima e katxor ! E ta detaba li na kauberdi ku Landa di Diréz mudjer kazada. Nha sta dôdu” !

Ao ouvir aquelas palavras Nha Txutxa não se deu por vencida e começou a rir buscando palavras mais amenas para tranquilizar a vizinha que afinal era a madrinha da Magui. “Nau kumadre ka nha fadiga pamodi Magui di meu dja roda txeu na Lisboa. Ami e si mae ma n’konxi nha fidja. E propi Sandrinho Kaio ki ta brandal brio”. Ao dizer aquelas palavras a Nha Natin di Putxa ficou preocupada. Afinal a sua afilhada não era aquela jóia de menina que ela ajudou a criar na zona da Várzea. Mas, mesmo assim manifestou o contentamento de poder partilhar o lindo dia em que seria formalizado a união. Magui e Sandrinho Kaio chegaram em Cabo Verde dois meses depois no mês de Julho de 1993. Era verão e a cidade da Praia pulsava um clima quente convidativo e inesquecível. Para ambos os noivos era a data de férias que sempre sonharam passar em Cabo Verde.

“É desta vez que a minha desvairada Magui toma um rumo na vida” pensou a Nha Natin di Putxa que era sua madrinha e ex- professora de catequese. Nha Natin escolheu numa Loja do Plateau um conjunto belo de panelas e resolveu introduzir numa das panelas uma folha de papel com uma oração de Santo António. Acreditava que aquela folha servia de amuleto para dar sorte à sua bela afilhada que apesar de tudo conseguiu concluir com sucesso o curso de enfermagem em Portugal.

Depois de duas semanas e com os documentos já prontos para oficializar a união a mãe da noiva recebe um telefonema dos Estados Unidos. Era o Kaló di Mima que estava de regresso da emigração. A mãe da noiva congelou as mãos ao falar no telefone com a sua amiga Lucinda. “Kuzé ki Kaló di Mima sta ben faze li na Kauberdi el e ka sta dreto pa lá nha Kumadre” perguntou apreensiva à sua amiga Lucinda e esta informou-lhe que Kaló estava com negócios de venda de apartamentos em Cabo Verde. “Li na Merca e ta passa vida ta pergunta pa Magui, ta kéxa ma fidja di nha largal pa sisi, sen un razon” afirmara Lucinda no telefone. Depois de terminada a conversa, tudo ficou turvo no pensamento da mãe da noiva.

Sentou-se na sala e começou a pensar o que fazer para que a vinda do ex-namorado não viesse atrapalhar o casamento sonhado da sua filha Magui. Sentou-se perto da foto do seu falecido marido e murmurou palavras de prece como se quisesse pedir algum tipo de protecção ao falecido pai da sua filha.

Passado uma semana o grande dia do casamento concretizou-se com vizinhos a correrem para ver a bela Magui a casar-se. Era notório o contentamento dos vizinhos que assistiram as sessões de fotos públicas e o momento em que a noiva jogava o bouquet de flores. Depois da cerimónia Nha Txtutxa foi procurar o advogado Natividade Tavares. Queria pedir-lhe um conselho sobre a situação financeira da família. O advogado pediu-lhe que viesses ter com ele três dias depois. Depois desta data resolveu procurar o escritório do advogado e foi lá que deu de caras com o kaio di Mima. Kaio estava com aspecto tenso e nervoso e mal ergueu as mãos para cumprimentar a Nha Txutxa esta recusou cumprimentar-lhe e disse em tons ásperos “ ka bu komprimentan pamodi ti inda n’ta lembra ma bu desfloran nha fidja y bu subi bu dôbra, disgrasadu” gritou com raiva ao lembrar o passado. Saiu furiosa daquele escritório e desceu as escadas nervosa para ir à sua casa esquecendo-se de deixar os documentos que o advogado Natividade Tavares lhe pedira de véspera.

Nha Txutxa chegou à sua casa nervosa e ao chegar a empregada doméstica lhe tinha dito que a filha e o marido tinham ido à uma agência de viagem comprar bilhetes de passagem para passarem as férias de Lua-de-mel na ilha de São Vicente onde vivia a mãe do Sandrinho Kaio. Nha Txtutxa estava descontrolada pois estava com medo que a Magui soubesse que o ex-namorado de adolescência estava cá na Praia. Ela apanhou o telefone e de novo ligou para Lucinda para saber mais informações sobre o Kaio di Mima mas a Lucinda não atendia o telefone. Nervosa resolveu procurar a ajuda da sua amiga e vizinha Natin di Putxa mas recebera a notícia de que esta estava ausente da casa. Tudo girava na cabeça de Nha Txutxa.

Passados dois dias eram por volta das 17 horas da tarde numa sexta-feira ensolarada a filha resolveu ausentar-se da casa. Aquela atitude deixou o marido e a mãe preocupados. Para não apoquentar o espírito do marido da sua filha pediu que este tranquilizasse e que seria ela a procurar pela filha. Nha Txtutxa saiu e foi directo para Paiol onde Kaio di Mima tinha uma casa com dois andares. Chegando lá perguntou à empregada se tinha visto a sua filha a entrar na residência e esta confirmou-lhe que sim. Nha Txutxa subiu as escadas da casa trémula pensando no pior que poderia ter acontecido. Ao chegar no corredor do primeiro andar da casa a empregada indicou-lhe o suite do Kaio di Mima. Ela bateu na porta devagarinho mas, ninguém respondia, entretanto sentia barulho de gente a conversar. Pediu as chaves da empregada e abriu a porta. A cena que viu foi chocante. O kaio di Mima e a Magui estavam em pleno acto sexual. Nha Txutxa puxou a filha pelos cabelos e lhe deu bofetadas. Arrastou-lhe nua pelas ruas e trouxe-a até entrarem num táxi que as trouxeram de volta para casa.

O marido ao ver a esposa nua e com cabelos desfeitos ficou estupefacto e perguntou o que tinha acontecido e a mãe disse que ela fora atacada por dois marginais e que se ela não tivesse chegado na hora certa o pior poderia ter acontecido referindo-se à possibilidade de uma morte. O marido abraçou a Magui e conduziu-a para a casa de banho ficando com a incumbência de lhe ajudar no banho. Era quase o cair da tarde e a fechar o dia quando Nha Txutxa resolveu procurar a sua prima Constânça para lhe pedir que marcasse uma tarde de oração na sua casa com a presença da sua filha Magui e do marido desta. A Constânça curiosa como sempre quis saber os motivos para uma tarde de novena em casa. Nha Txutxta puxou no seu colar de zibitxi que trazia sempre pendurado ao pescoço e murmurou calmamente: “Satanás sta rondan nha kaza ma ami n’ka ta dexa”.

Fechou a portinhola da sua varanda e trancou a porta da sua casa. Naquele dia percebeu que ser mãe não era um paraíso mas, sim um covil de leões em que ela teria que lutar para a felicidade daqueles que amava. E sua filha era uma das pessoas por quem teria sempre que lutar.

 

 

 

Texto com :Maria José Macedo

 

 

 

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