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Pinceladas Quotidianas

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kôrbu

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 “kôrbu ku obu na boka”assim murmurou entre os dentes Kalô di Nuna ao ver sair do táxi Tino di Djufa que regressou de férias de Portugal com a sua linda esposa portuguesa chamada Natércia. A inveja e a raiva que Kalô sentia do Tino eram as mesmas que os vizinhos tentavam esconder a todo o custo devido ao racismo vigente na sociedade cabo-verdiana que não suporta ver um homem negro ao lado de uma mulher branca ainda por cima linda. Era indisfarçável a cara feia com que olhavam para o Tino embora este parecia nunca estar incomodado com a atitude racista demonstrada pela rejeição dos vizinhos.

Alguns sentiam-se incomodados ao vê-lo ao lado da sua linda esposa. Mas, as pessoas também esqueciam-se de que Tino era um homem por demais sedutor. Tino era um mulato de dar água na boca e as mulheres ficavam loucas com ele , não só pela beleza física mas, principalmente pela naturalidade com que lidava com as fêmeas crioulas. Tinha sempre um piropo gostoso na ponta da língua para lhes dizer ou um elogio para as galantear.

Era assim com a sua vizinha Isa que ao vê-lo descer com as malas do Táxi correu para o abraçar dando um grito bem alto:” Avé Tino forti sodade bô nha boy” dizia ela alegre abraçando-o na frente da esposa que olhava a cena com tranquilidade pois sabia que na cultura caboverdiana essa era uma forma carinhosa de se acolher um amigo que não se via há muito tempo.

Isa fez questão de lhe ajudar com as bagagens e ao entrar na casa dos pais do Tino, esta gritou bem alto para os irmãos descerem as escadas para apanhar as malas “Tulex, Titá nhôs ben panha mala, Tino dja txiga, nhôs dixi so fáxi” gritou a rapariga rasgando um lindo riso nos lábios. Os irmãos saltaram as escadas e entraram na sala do rés do chão para abraçar o irmão e a esposa deste. Natércia não era antipática e a sua atitude correta dava um certo ar de conforto aos familiares de Tino. Os irmãos do Tino logo que viram a Natércia disseram que ela estava muito elegante. Ela riu e agradeceu o elogio e logo de seguido tascou um beijo na boca do marido na frente dos seus irmãos Tulex e Titá. A forma como beijava o marido era por demais sensual pois abraçava-o com um sentido de posse que só ela tinha. A forma como expunha a língua no beijo deixou Titá e Tulex envergonhados pois achavam que esse gesto devia ser reservado para momentos íntimos do casal e não na sala à frente deles que presenciarem o acto com visível constrangimento.

Aquele beijo intenso era como se indirectamente quisesse dizer aos irmãos de que ela amava o marido e se estava elegante porque as coisas ao nível familiar também corriam bem. Ela estava vestida bem descontraída usando uma blusa preta e uma calça jeans da mesma cor . Por cima trajava um jaqueta branca que deixava bem exposto o seu corpo escultural modelado por vários anos de prática do andebol. Depois de cumprimentar a família Tino e Natércia acomodaram num quarto de hóspedes no primeiro andar da casa. A casa de dois pisos era pintada em tons lilás na parte exterior e no interior a escolha recaiu sobre o verde e o azul duas cores preferidas dos pais de Tino. Nha Djufa mãe de Tino era adepta ferrenha do Sporting e o pai Nho Dóti era adepto entusiasmado do Porto . A casa deles tinha uma vibração positiva e harmoniosa dessas duas cores e ao longo de 40 anos de matrimónio nunca brigaram por causa do futebol .

Era Fevereiro e tudo inspirava Carnaval e naquele ano de 1998 tudo parecia bom para um casal recém chegado de Portugal para passar alguns dias de férias com a família. Parecia realmente ter sido o melhor momento para desfrutar alguns dias de descanso embora se fazia sentir uma forte bruma seca no arquipélago. Tino e Natércia estavam casados há quatro anos e não tinham a intenção de ter filhos de imediato por isso aproveitavam sempre para desfrutar a vida. Estar em Cabo Verde era um sonho acalentado e um projecto de viagem bem organizado.

Natércia sempre queixava da mesma situação quando vinha para Cabo Verde ou seja os cães que andavam de um lado para outro remexendo no lixo à procura de comida, enquanto que Tino irritava-se com o mau hábito que alguns vizinhos ainda tinham de jogar água suja na rua.

Tino olhou para o relógio e perguntou a esposa se queria sair para jantar num restaurante mas, esta recusou afirmando que preferia descansar da viagem. Ao ouvir a conversa do casal Nha Djufa logo ofereceu um manjar simples para a sua nora:“Nu téni sopa di rolón Tino si bu mudjer krê n’ta kental góssi li” ofereceu nha Djufa limpando as mãos no seu avental de cozinha. Natércia aceitou experimentar a deliciosa sopa de rolón e agradeceu a sogra pelo gesto de amabilidade. Depois de tomar a sopa alguém bateu à porta era o Vitorino um grande amigo de infância que fora visitar Tino. Este entrou na sala e deu um forte abraço no Tino de quem há muito não tinha nenhuma notícia :“sócio abô bu ta ben nen bu ka ta da fala, fatela pa” reclamou Vitorino.

Falaram na sala por alguns momentos e experimentaram um delicioso Ponche de Côco que Nha Djufa lhes serviu acompanhado de moreia frito até que entrou na sala a Natércia esposa do Tino . Vitorino ficou perturbado com a beleza da Natércia embora disfarçou para que o seu amigo Tino não sentisse ciúmes. Apresentaram-se um ao outro e cumprimentaram-se com respeito e antes de ir embora Tino chamou Vitorino e perguntou-lhe se não tinha nenhuma novidade. “Sócio n’sta mesti desgadja ku algun kriola di téra ta da pa bu ranjan algun kusa si” perguntou Tino com a voz baixa para que a esposa não ouvisse a conversa. Vitorino arregalou os olhos espantados e logo questionou:”sócio bu sta busca sarna pa bu koça, abô ku mudjer bonita dentu kaza..”. Ao ouvir estas palavras Tino sorriu e logo perguntou pela sua ex-namorada a Mayara. Mas, Vitorino foi bem assertivo “Mayara káza ku um tuga, ês ta mora li mé na Txada” informou o amigo que a seguir deu-lhe o número de telefone da rapariga .

Tino estendeu as mãos e pegou o papel onde estava escrito o número do telefone da sua ex-namorada Mayara. Tino fechou a porta da sala quando o amigo foi embora e de seguida acendeu um cigarro para descontrair a tensão do momento. Ao olhar para o pedaço de papel que segurava nas mãos recordou dos momentos quentes que viveu com a Mayara , uma mulata fogosa natural de Calheta e que escolheu Achada de Santo António para viver. Estava sentado sozinho na ampla sala de estar e enquanto vagava entre os pensamentos e lembranças do passado , sentiu de repente mãos suaves e perfumadas massajando -lhe os ombros. Era a sua esposa Natércia que o veio buscar para irem dormir . Já era quase meia noite e a casa estava em profundo silêncio, um ambiente propício para ambos que estavam exaustos da viagem. A esposa com suavidade sugeriu que também eles fossem descansar. Tino olhou para o relógio e em seguida fechou as luzes da sala antes do recolher obrigatório do sono nocturno.

 

Texto: Maria José Macedo

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