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Pinceladas Quotidianas

Pinceladas Quotidianas

Maria Giralda

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Nenela di Puluka estava no seu posto de trabalho quando atendeu o telefone sobressaltada. Do outro lado da linha era a sua avó Nha Puluka que lhe informara de que tinha que deixar o serviço para acudir Tayrine, sua filha de apenas 1 ano de idade que não parava de vomitar. Por ser mãe solteira era obrigada a acudir todas as solicitações que diziam respeito à sua filha Tayrine. Era verão e mesmo em época de calor eram frequentes os pais que eram apanhados de surpresa pela tal virose , uma doença que na cidade da Praia nunca ninguém sabe a origem ou antídoto para cura. O certo é que a virose acontecia num espaço de tempo de 4 dias e depois a criança recuperava-se dos incómodos sintomas. Nenela ao ouvir da má notícia largou o posto de serviço, por sinal uma pensão no Meio de Achada onde trabalhava como recepcionista ganhando um salário fixado em 25 mil escudos por mês.

Naquela hora ao receber a chamada telefónica dirigiu-se para o jardim infantil onde a criança estava com uma das tias que cuidavam dela. A professora do pré-escolar, a Joanilda informou que a Tayrine passou mal e que hoje não quis tomar nem iogurte nem papa nestum. Nenela ficou fadigada e logo levou a filha para o posto de saúde mais perto da localidade. Chegando lá ao preencher a ficha a atendente perguntou-lhe se a criança não tinha pai pois no boletim não estava escrito o nome do pai. “Abô bu filha ka tem pai” ? Quis saber a atendente que ao pedir o cartão do PMI notou de novo a ausência da identidade paterna. “Nhôs ta pári dipôs ka ta sabedu kenha kê pai di fidjo”murmurou chateada a atendente que a seguir ouviu uma boa resposta da Nenela” Nome de criança é Tayrine Katiela da Silva, sima sta lá , nha ka ten ki pergunta pa si pai nau. Atrevimento” repreendeu com vigor apanhado a sua bolsa e documentos em cima do balcão de atendimento do posto de saúde. A atendente não lhe deu a resposta e pediu que sentasse até ser atendida pela médica.

Depois de quase duas horas de espera Nenela foi atendida e a sua criança foi medicada pela pediatra que recomendou não encher o estômago da criança com comidas desnecessárias do tipo matutano ou outros tipos de fast food baratos vendidos nos mini mercados.

Depois de ter saído do posto de saúde Nenela encontrou-se no caminho com Pulan e Totói dois polidores de calçada que tinham o péssimo hábito de dar novidades sobre a vida alheia. “Abô Samora dja largou djê bai pega ku Zenaida di Lulucha. El ki sta bon foz. Abô góssi pa el é mama geladu” riu o Pulan que trajava um calção largo de cor castanho e uma t-shirt da cor preta da grife Red Sox. Ao ouvir o comentário de Pulan , Nenela não respondeu pois estava com a filha ao colo e com o sol abrasador que se fazia sentir seria inútil estreitar diálogo acalorado com um indivíduo desempregado e mal intencionado como era Pulan. Além do mais Nenela sabia que Pulan dizia essas coisas por causa de uma dor de cotovelo pelo facto de lhe ter trocado pelo Samora.

Aliás era voz corrente na zona onde Pulan reside de que este nunca aceitou de ânimo leve o facto de Nenela lhe ter recusado um pedido de namoro. A paixão não correspondida por Nenela levava-o a ter essas e outras atitudes bruscas e mesquinhas .

Nenela chegou à sua casa muito cansada e ao apanhar as chaves na bolsa para abrir a porta ouviu a sua vizinha Marilena que estava a estender as roupas na corda a cantarolar: “ Oh Maria Giralda, Maria Giralda kenha kê pai di bu fidjo” dando-lhe uma indirecta. Nenela virou a cara e disse-lhe: ” Mudjer ka ta bôta mudjer piada. Cobarde ka gó cornenta” retrucou Nenela.

Marilena soltou uma gargalhada e retorquiu em seguida:”Ami é cornenta ma pelo menos n’ten marido dentu kaza, abô gó nen bu moss ka registou Tayrine. Krê bu deta ku el na sukuru” afirmou apanhando o cesto com molas de roupas.

Nenela não respondeu mas sabia bem lá no fundo do seu âmago que a sua condição de mãe solteira a viver com a sua avó Nha Puluka era de todo constrangedor mas, de qualquer modo ela não era a única cidadã cabo-verdiana a viver tal situação. Ser mãe solteira e não ter uma filha registada pelo pai da criança é uma realidade que faz parte da sociedade cabo-verdiana.

Em Cabo Verde a problemática parece ser um mal social que ainda não tem uma solução à vista. Até porque em termos populacionais há desequilíbrios. O arquipélago contava em 2000 com uma população total de quase 500 mil habitantes sendo que em termos populacionais os dados do INE indicam que há 94 homens para cada 100 mulheres. A relação homens/mulheres mostra o predomínio das mulheres, ao longo de todos os anos, sendo que a disparidade dos géneros joga os homens na condição do macho desejável e pouco acessível. Uma realidade por sinal bem aproveitada por alguns homens cabo-verdianos adeptos do machismo.

Eram por volta de 18 horas quando Nenela recebeu um telefonema de Samora que queria conversar com ela sobre a filha: “Nu mesti fála sobre Tayrine, pamodi ka sta dreto,ami é si pai” afirmou o rapaz ao telefone.Nenela ao em vez de ouvir tranquilamente o pai da sua filha começou logo a pedir ajuda: “Tayrine mesti Dodot, lete, nestum ki dja kába. Ka gó n’lebal consulta médica passan ramedi ma n’ka teni dinheru pan bai kumpra na farmácia” desabafou a jovem mãe desesperada.

Nha puluka que locomovia sempre sentada no seu carinho de rodas pediu à neta para desligar o telefone. Como esta não lhe dava ouvidos ela arrancou com as suas próprias mãos o telefone do gancho e berrou bem firme: “Ka ta dabu burgonha ? Ku tudo mal ki kel rapaz dja fazeu. Largou prenha , ka gó nem ka registou fidjo. Góssi depôs di 1 ano bu ta ben pedil ajuda pa Tayrine. Menina bô gó” ! Criticou Nha Puluka mulher conhecida na zona de Ponta kutelo por ser uma das melhores confeiteiras de tabaco ou Cancan como chamavam. Nha Puluka levantou o seu avental e tirou de dentro de um lencinho cinco mil escudos em dinheiro e deu para a sua neta Nenela. Ela prometeu à neta que caso precisasse de dinheiro poderia pedir à vontade.

Nha puluka era a imagem da típica mulher lutadora , uma espécie de “Dona Ana” como cantara Cesária Évora. Criou a sua neta Nenela com o esforço das suas vendas de tabaco e guloseimas típicas como barnelo, cimbrão , drops de tofé e doces de aranha no seu tabuleiro coberto com rede de nylon. Ela colocava um tabuleiro enfrente ao Liceu Domingos Ramos e só aparecia no final da tarde para recolher o dinheiro. A sua afilhada Polina é quem sempre lhe vende os produtos já que com a doença e a invalidez acabou por depender muito mais de terceiros e do seu carinho de rodas com o qual locomovia para vários lugares.

Naquela tarde nha Puluka ficou triste pois notou que apesar de todo o mal que o pai do filho da sua neta fez esta ainda aceitava conversar com ele como se ainda tivessem qualquer tipo de relacionamento amoroso.

Nha Puluka não aguentou as lembranças e de novo tirou o lencinho do seu avental mas, desta vez era para limpar as lágrimas que teimavam em cair no seu rosto. Lembrava como se fosse hoje quando Heldigarda sua filha embarcou para França com um cooperante estrangeiro e deixou-lhe com a neta Nenela com apenas 20 dias nascido. Volvidos 25 anos depois, ela mesma pergunta a si própria onde foi arranjar a coragem e a força para criar com amor e cuidados a sua neta estando sentada num carinho de rodas.

Nenela é hoje uma mulher adulta, graças ao empenho da sua avó Puluka. Lembrava das dificuldades que foi matricular a neta na escola e da batalha que foi quando esta esta concluiu o 12º ano e manifestou a vontade de prosseguir os seus estudos superiores aqui mesmo em Cabo Verde. Foi com sacrifício que vendeu brincos e anéis de ouro deixados pela família e ajudou a neta a terminar o curso Gestão de Hotelaria e Turismo. Mesmo depois de formada Nenela só encontrou trabalho há quatro anos após conclusão do curso.Colocou curriculum vitae em várias empresas e ministérios mas nunca foi chamada para trabalhar. Tentou até leccionar mas, não tinha “cunhas e padrinhos” para lhe garantir uma vaga. Por causa disso ficou quatro anos desempregada após ter concluído o curso.

O trabalho de recepcionista numa pensão familiar só foi conseguido porque os proprietários da infra-estrutura eram filhos de um casal amigo de Nha Puluka, caso contrário Nenela até ainda estaria desempregada e quiçá a correr atrás do Samora que nunca lhe deu a mínima atenção ou ajuda para criar a filha. “Desgraçadu, djan katrissa ku di meu ti góssi é ta ben txomal pê torna bai pol prenha.Intentadu”murmurou nha Puluka ao pensar na cena que tinha presenciado na sala da sua neta a falar ao telefone com o pai da sua filha. Nha Puluka iria fechar a portinhola da varanda da sua casa quando viu passar o seu amigo e compadre Djunga di Katrina que lhe perguntou com gentileza:” Kumadre mo ki nha sta” . Nha Puluka respondeu ao amigo com tranquilidade “So ta matuta bida, nho dan kumadre mantenha”.

 

Texto: Maria José Macedo

Ilustração: Kiki Lima

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