Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Pinceladas Quotidianas

Pinceladas Quotidianas

O falso morto

17_LEJzL.jpg

Era uma tarde fria nos idos anos noventa quando no bairro de Achada de Santo António ouviu-se a triste notícia de que Ildinho di Nha Nalda tinha sido morto a tiro e abandonado dentro de uma viatura no fundo da zona de Meio de Achada . Logo ele, um jovem líder da comunidade txadense a surgir morto numa zona em que ele não residia ! Um mobilizador das campanhas eleitorais , o menino bonito da sua mãe, o rapaz simpático que granjeou a confiança de todos principalmente em actividades culturais onde a sua performance como dançarino era de inigualável comparação. A notícia provocou lágrimas e Nha Yáyá ao ouvir a notícia pôs as mãos encima da cabeça e começou a gritar pelas ruas do meio de Achada:” Ai mundo nha rapazinhu dreto. Minino ki tud alguen krê txeu”. Assim chorava a idosa que também padecia do vício do alcoolismo. Ela viu o Ildinho a crescer desde tenra idade.

Os vizinhos imediatamente correram para ir à zona de Meio de Achada mas, não conseguiram localizar a tal viatura onde se dizia ter sido encontrado o corpo do Ildinho. Desanimados decidiram ir à esquadra da Polícia obter alguma informação mas, não havia nenhum registo da ocorrência sobre o paradeiro da tal viatura com o corpo do jovem. Entretanto, na casa dos pais do Ildinho havia gente a chorar e a dar pêsames. Um acto de todo estranho já que o corpo não havia sido localizado. Entretanto, tomados pela emoção e dor os vizinhos nem sequer questionaram o paradeiro do corpo ou as circunstâncias estranhas que rodeavam o desaparecimento físico do rapaz.

Era quase o cair da noite quando parou enfrente da casa do morto um carro preto com vidros escuros. Lá dentro saíram quatro indivíduos de aspecto físico bastante duvidosa ostentado grandes anéis de ouro , sapatilhas coloridas de marcas e correntes grandes de ouro no pescoço. Os visitantes que foram ao nodju ou seja visitaram a casa dos familiares do morto eram apontados como sendo pertencentes à máfia . Sendo assim ninguém quis levantar a cara para ver os quatro elementos no rosto quando entraram na sala com medo de alguma represália. Os quatro homens chamaram os pais do morto e entraram num quarto e fecharam a porta para conversar.

A conversa demorou mais de uma hora quando os quatro homens saíram do quarto dos pais do jovem falecido. A Dinda di Monturu, tida como fofoqueira não gostou de ver aquela imagem e logo foi telefonar para o senhor Honorato Monteiro conhecido homem da sociedade praiense e que escrevia muitos artigos nos jornais sobre a insegurança e o crime na capital . Dinda havia descrito ao senhor Honorato sobre a forma como a situação decorreu. Depois desta conversa o senhor Honorato apareceu repentinamente na casa para falar com os pais do jovem que iria ser enterrado à tarde no dia seguinte.

“Anhôs afinal rapazinho more ma ninguém ti inda ka odja korpu. Kéli eh kuzé ki sta passa”. Perguntou ele ao casal. Envergonhados e sem saber como fazer para dizer a verdade Nha Nalda chamou o senhor Honorato num canto e disse que o filho tinha viajado desde ontem para Europa e que o enterro e a cerimónia do funeral eram formas de ludibriar as pessoas e as autoridades que estavam no encalço do jovem. Este ultimamente estava na boca do povo pois exibia bens que as suas posses não permitiam obter e que por isso para limpar a barra do rapaz era necessário criar um factóide para acalmar as hostes. Ao ouvir aquelas explicações Honorato ficou espantado e questionou quase a gaguejar: “Ma n’odja Nha YáYá ta txora sen manha, modi ki nhôs ta splikál gó” ?

Nha Nalda sossegou-lhe dizendo que aquilo era tudo uma espécie de combinação, ou seja que Nha Yáyá tinha recebido dinheiro e uma garrafa de aguardente para chorar e fingir-se perante os vizinhos já que ela era conhecida como aquela que mais frequentava funerais em Achada de Santo António. Ao ouvir aquelas explicações o senhor Honorato sentiu que estava perante uma farsa da qual teria que se apartar o mais rápido possível evitando deste modo que a sua credibilidade enquanto figura pública fosse posta em causa.

No dia seguinte a família anunciou de que o funeral seguia para o cemitério da Várzea por volta das 16 horas. Era impressionante um enchente de jovens trajando roupas de dança e outros com camisolas com fotografias do jovem morto com dizeres sobre a sua data de nascimento e frases que o jovem gostava de dizer .

Nha Luta di Nhu Manuzinho abriu a sua janela da sua casa ao ver o cortejo fúnebre e murmurou entre os dentes palavras incompreensíveis. Certamente que tinha ficado aliviada já que o Ildinho costumava ensaiar no terraço da vizinha que morava ao lado da sua casa e todas as noites era audível o barulho que a música estridente fazia incomodando-a.

Txoné di Sonzinha era também um dos vizinhos que ficou certamente feliz com a notícia da morte do Ildinho pois era voz corrente de que a sua esposa Sonzinha era amante do rapaz. Inclusive contam as más-línguas que o Ildinho fora pego em flagrante na famosa discoteca Pilon com a Sonzinha enquanto esta lhe fazia um boquete. Foi mesmo naquela altura que Txoné ganhou alcunha de “Txoné manso” pois mesmo perante as más-línguas e as fofocas do povo continuou fiel e dedicado à sua esposa.

O cortejo fúnebre seguiu tranquilamente até ao cemitério da várzea. Eram quase 17 horas e trinta minutos quando o caixão iria ser enterrado na vala. Algumas pessoas pediram que abrisse o caixão para que despedissem do malogrado Ildinho mas, Nha Nalda recusou num acto brusco e violento. Deitou-se por cima do caixão e gritou apavorada dizendo que ninguém ousaria abrir o caixão: “Kenha ki poi mon na kaxón n’ta dal ku nabadja gósi li” ameaçou mostrando o seu canivete comprado numa das viagens que efectuara à Holanda.

Aquele gesto estranho deixou as pessoas que estavam no enterro muito desconfiadas. Muitas pessoas ao saírem do cemitério não quiseram regressar à casa do morto para renovar os sentimentos de pêsames aos familiares pois sentiam-se como que enganadas ou então manipuladas por alguma farsa.

Passado uma semana regressou de férias da Holanda a ex-namorada de Ildinho a Mirtza. Tida como rapariga de língua solta , esta tratou de contar aos vizinhos de que tinha visto há quatro dias atrás o Ildinho numa paródia de crioulos em Rotterdam. Os vizinhos ficaram chateados e foram bater à porta da casa dos pais do Ildinho para saber se o que Mirtza dizia era verdade. Ao entrarem na casa a empregada informou-lhes de que os pais do Ildinho mudaram-se de mala e cuia para a ilha do Sal e que não deixaram nem endereço e nem telefone para contactos. Nha Luta di Nho Manuzinho ao ouvir aquelas explicações da empregada doméstica, virou-se para os vizinhos e disse:” Djam fraba ma era falsu morto, nhôs ka óbi ku mi”. A Mirtza caiu na gargalhada e disse languidamente : “Pixingueru, desgrasadu, ti na ora di morte el ka da godémi”.

Texto: Maria José Macedo 

Pintura: Edvard Munch - óleo sobre tela 

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D