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Pinceladas Quotidianas

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Os peixes da Doda

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Cansada de reclamar da vida Doralice ou Doda (alcunha colocada pelos amigos e familiares) resolveu lançar-se como peixeira , profissão que a sua mãe Nha Sábo abraçara durante a vida inteira até ter sido atacada por uma trombose que lhe paralisou o braço esquerdo. Deficiente e a depender dos filhos e do marido, Nha Sábo projectou na sua filha Doralice a continuação da sua profissão e o meio para o sustento da família.

Vender peixes não era o sonho da jovem rapariga, mas, já concluiu o 12º ano e não tinha meios para seguir um curso superior. Aliás, o facto de ter sido mãe aos 15 anos de idade encurtou-lhe as possibilidades de alargar o seu horizonte em matéria de formação profissional e aos seus 18 anos de idade sente que não pode continuar a reclamar da vida e a depender da ajuda financeira dos pais.

“Pêxe fresku dja txiga, txitxarinhu y bidion”. Assim anunciava a jovem peixeira pelas ruas de Achada de Santo António num bom crioulo em variante da ilha de Santiago. O seu primeiro dia de venda foi desastroso pois vendeu pouco. Os fregueses na sua maioria donas de casa queixavam-se da falta de dinheiro mas, Doralice fazia um esforço para as recompensar.

“Si nha kumpra, nta poi kompustura”. Prometia acrescentar um pouco mais para aquelas que quisessem comprar-lhe o peixe. Doda olhou à sua volta e viu que de manhã até ao meio dia ainda não tinha vendido a metade do que levara na sua vasilha de plástico. “Pôxa oje eh nha dia di azar” pensou  ela com raiva pois o sol ardente enchia-lhe a testa de suor.

Imaginou como seria decepcionante chegar à sua casa sem poder levar uma boa quantia em dinheiro da venda do peixe que era do seu pai Nho Kakai.

Assim que o relógio apontou para o meio dia e trinta minutos ela regressou para casa com a vasilha ainda com peixes. “Abô bu ka ta sirbi, nem pa bendi pêxe, paxenxa minina” reclamou a sua mãe ao ver a vasilha ainda com alguns peixes. Doda não respondeu e entregou o dinheiro da parte do peixe que vendera. De seguida foi lavar as mãos com água e sabão mas, antes ouviu uma fofoca da Nha Joana di Pimpa, vizinha alcoviteira da sua rua: “N-ôbi ma Ducku pai di bu fidjo sta ku transu ku Carlita di Titá kel pixinguinha, ka bu abre odju, bu ta odja” avisou-lhe a vizinha que só sabia falar mal da vida alheia. Ao ouvir a novidade, Doralice puxou os beiços e disse estar desinteressada no ex-namorado e pai do seu filho: “ Gósi n’krê só sabe di nhas pêxe pan ganha dinheru”. De seguida acrescentou calmamente enquanto secava as mãos húmidas: “Ducku eh pixingueru y ticá mi ku el nu ka ten maz”. Retorquiu olhando para a toalha de rosto pendurada na corda de roupas.

Nha Joana di Pimpa não gostou de ouvir aquelas justificativas e foi-se embora com raiva sem despedir-se do resto da família.

 

 

 

Ilustração:Tapeçaria de Cândida Maria da Luz Rocha

Texto: Maria José Macedo

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