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Pinceladas Quotidianas

Pinceladas Quotidianas

Silêncio

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Para ficar com Félix, Catarina tinha sempre ceder e perdoar. Eram frequentes as críticas do marido e a paranóia que este tinha de que vivia com uma esposa não apropriada para atender as suas exigências. Assim, quando algo de mal acontecia com ele no escritório fazia questão de murmurar palavras entre os dentes atribuindo a culpa ao mau relacionamento que mantinha com a Catarina , vinte anos mais jovem do que ele. Num dia nublado Catarina saiu para ir comprar flores e pastas de atum. No caminho encontrou-se com a sua vizinha do condomínio a dona Hermínia. Esta confidenciou-lhe de que o Félix falava mal dela com elementos da sua família .

“O meu filho Marcolino passa a vida a dizer que o seu marido Félix queixa-se muito sobre você” informou a dona Herminia uma viúva que tinha a fama de bisbilhotar a vida alheia.

Catarina chegou em casa desanimada ao lembrar-se das palavras de dona Herminia. Achava muito estranha a atitude do seu esposo em compartilhar a intimidade da vida familiar com outras pessoas principalmente Marcolino, um deputado influente na cidade. Naquela noite ela prometeu a si mesma de que iria esclarecer os factos com o marido assim que este regressasse do trabalho. Precisava fazer isso para ter um pouco de paz de espírito.

Quando o marido chegou em casa eram por volta das 18 horas. Com o tempo nublado que se fazia sentir, a tarde escureceu-se de tal forma que parecia ser já quase o início da noite. Félix entrou na casa muito chateado e notou que no canto da sala onde costuma estar o carrinho de bebidas não havia o seu inseparável whisky Johnnie Walker Double Black e muito menos o seu apreciado Red Label. Observou bem e viu ainda que o carrinho também não tinha abridores, saca-rolhas, balde, pegador de gelo e taças. “Que tipo de esposa és tu Catarina. Neste carrinho não há gelo, nem limão para a preparação da minha bebida” ! Questionou o Félix mal humorado empurrando com os pés o carrinho de bebidas.

Irritado com a situação apanhou o seu chapéu e chaves de carro e resolveu sair de novo para a rua mas, antes a Catarina quis saber se ele viria para o jantar. “ Não me espere para o jantar, estou aborrecido para partilhar o manjar do último dia do ano com gente incompetente” criticou enquanto o seu celular tocava. “Então não vais atender o seu celular “ quis saber a Catarina ao notar que o marido estava tenso enquanto olhava para o ecrã do aparelho sem coragem de atender a chamada. “Não vou atender é o Simão o meu contabilista, hoje de manhã tivemos problemas no escritório. O último dia do ano é sempre assim” justificou Félix saindo logo da sala e fechando a porta.

Catarina ficou muito desconfiada e resolveu esclarecer os factos telefonando para o Simão. Depois de lhe ter explicado o que tinha sucedido , Simão esclareceu de que não tinha sido ele a pessoa quem tinha telefonado para o seu esposo Félix. Ao ouvir isso Catarina ficou perturbada e imaginou quem teria telefonado para o marido deixando-o naquele estado de perturbação. Era quase meia noite quando sentiu o barulho das chaves na porta da casa. Era o seu marido Félix que havia acabado de regressar à casa.

Estava com aspecto de quem comeu e não gostou. Ao olhar para ele sentiu que haviam coisas por esclarecer. “Por favor Catarina poupa-me dos seus sermões a esta hora da noite . Amanhã falaremos com mais calma mas hoje não” defendeu-se subindo às pressas as escadas que o levaria ao belo suite do casal. Catarina estava tensa a pensar em como poderia dormir naquela noite. Haviam dúvidas por esclarecer e coisas por explicar. Iria iniciar um novo ano e todas as dúvidas pendentes teriam de ser esclarecidas.

Sentou-se por alguns instantes na sua bela poltrona no canto da sala pois vieram lembranças do tempo em que era adolescente e que quando algo não lhe corria bem costumava ir à beira mar escrever as preocupações na areia molhada. Achava que o acto de escrever as palavras na areia era uma forma de confidenciar ao mar aquilo que perturbava a sua alma e o mar por sua vez levava todas as suas preocupações com as ondas . Mas, naquela noite ela não podia ir para a beira do mar por isso preferiu o silêncio. Levantou-se da sua poltrona e afrouxou levemente a cortina da janela da sala para observar a noite iluminada pelos fogos de artifícios. Era a noite da virada do ano e o céu estava lindo e iluminado. “ Que o ano novo seja realmente iluminado” balbuciou olhando para o relógio que marcava acima da meia noite.

(Fim)

 

 

Texto: Maria José Macedo

 

 

 

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